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sexta-feira, 13 de maio de 2011

A VOZ MASCULINA NA EDUCAÇÃO INFANTIL



                                                                                        
“Enfrentar preconceitos                                                                                       é o preço que se paga                                                                                  por ser diferente”.                                                                                                                                                           Luiz Gasparetto

Rafael Bastos Santos[1]
  
RESUMO

O presente trabalho faz uma reflexão sobre o homem como professor de Educação Infantil, visto que este espaço é extremamente feminino e o masculino não tem um lugar de destaque. Entende-se que o cuidar materno está ligado a mãe e fica bem representada por uma mulher. No entanto fica difícil o homem ocupar esse espaço. Pretende-se desmistificar que essa profissão não é especifica de um determinado gênero, podendo ser exercida por quem se qualificou,sendo a escola um dos caminhos para desconstruir esse preconceito que está enraizado ao longo do tempo.

Palavras Chaves: Gênero, docência, Educação Infantil

INTRODUÇÂO
O homem encontra muitas dificuldades e limites para atuar como professor de Educação Infantil, fator esse que fez com que eles migrem para outras áreas. Durante toda minha graduação em Pedagogia e na Especialização em Educação Infantil esse tema me instigou a buscar respostas sobre esse questionamento “Por que esse espaço tem pouca representação masculina”?Por que a concepção de Educação Infantil está ligada as mulheres? O meu primeiro passo foi recorrer a uma leitura bibliográfica para entender a História da Educação brasileira. Tive um aprofundamento com estudos sobre identidade e gênero, Louro (1997), Manoel (1996), Tambara (1998). A reflexão apresentada nesse artigo nos mostrará os encontros e desencontros dessa profissão com recorte na Educação Infantil O exercício da docência na Educação Infantil fica exclusivamente dominada pelas mulheres. Em seguida fiz uma pesquisa na Secretária Municipal de Educação e Cultura do Município de Boa Vista do Tupim, Constatei que existe apenas dois homens atuando nessa área, dois que guerreiros que desempenham a profissão com compromisso e responsabilidade quebrando todo aquele discurso que homem não pode ensinar crianças de 0 a 5 anos.
Historicamente podemos observar que essa profissão sempre foi exercida por mulheres, pois elas têm o dom de ser mãe e quando um homem adentra este espaço principalmente na educação infantil enfrenta preconceitos e barreiras sexistas.
Para prosseguir os estudos tive que definir o que é gênero[2] e como acontece essa relação no ambiente escolar percebi que este espaço é extramente preconceituoso e marcado por mulheres, o ambiente escolar não está preparada para tratar de questões como: religião,deficiência e a diversidade, nesse espaço se encontra diferentes aspectos  que formam a  nossa cultura, vários costumes , ideias, nucleação familiar ou seja um espaço diversificado.

A escola deveria se caracterizar em um espaço que não excluísse e sim uma aliada nos quebras de paradigmas. Sendo um ambiente que não tivesse tanto desencontros em suas ações.
 Ainda está longe da escola aceitar o homem como professor, existe barreiras sexista , não se problematiza  essa questão , acaba-se reproduzindo  um modelo social  arcaico , longe do que se rezam os documentos que regulamenta a educação brasileira.
Pouco se tem de escrito sobre a feminização do magistério o que se sabe que aos poucos as mulheres foram ocupando um espaço que era  extremamente  masculino, hoje  a mulher é vista  como a  melhor  representação pelo simples fato o dom “natural” de ser mãe pois é  a educação infantil é vista como uma extensão do lar e de responsabilidade de mulheres. Como afirma Carvalho (1998; p 5):
Predomina uma visão maternal e feminina na docência no curso primário, colocando em relevo os aspectos formadores, relacionais, psicológicos, intuitivos e emocionais da profissão, frente aqueles aspectos socialmente identificados com a masculinidade, tais como a racionalidade, a impessoalidade, o profissionalismo, a técnica e o conhecimento cientificam.

Na Educação Infantil os termos utilizados são sexista (tia, mãe e professorinha) a voz masculina fica silenciada caracterizando esse ciclo como parte do lar da criança esquecendo-se das políticas educacionais que regulamenta esse segmento da educação esquecem da diversidade que existe no século XXI e acabam reproduzindo comportamantos dos séculos passado.
A EDUCAÇÃO INFANTIL NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
Quando surgem as primeiras creches no Brasil na revolução industrial, os poucos homens magistério que exercia o saem do espaço educacional e procura o novo modelo de trabalho que estava surgindo a todo vapor, pois surgia oportunidade de ganhar mais dinheiro, o ambiente escolar começa a ganhar característica feminina, aos homens estava destinado trabalho braçal, eles eram o provedor do lar.
Com o advento da revolução industrial as mulheres sentem a necessidade de arrumar um local para trabalhar como não poderia deixar seus filhos sozinhos, teria que arrumar um local deixarem seus filhos enquanto trabalhava nas indústrias, algumas, surgem então a necessidade de criarem as creches funcionavam com condições precárias.
Até pouco tempo o atendimento de crianças de 0 a 6 anos era algo que não tinha amparo por lei, destinavam-se um espaço para elas serem cuidadas sem nenhum embasamento pedagógico e sim  submetidas a um atendimento assistencialista, que atentava para as questões de saúde e alimentação para que  reduzisse os índices de mortalidade infantil.
Só a partir de 1988 com a promulgação da constituição brasileira a Educação Infantil (EI) passa a ter um capitulo como direito das crianças de 0 á 6[3] anos e dever do estado.
Na década de 1990 surgem o Estatuto da Criança e do adolescente que vai dando passos importantes na implementação de políticas públicas para EI, alguns anos depois surge a LDB (Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional) 9394-96 definindo Educação Infantil como a primeira etapa da educação básica.
Na atualidade a EI conta com a parceria do Ministério Público, Conselho Tutelar, Juizado da Infância e adolescência, ONGs, Fóruns de debates entre outras entidades que atuam na proteção das crianças, pois não são mais vistas como um adulto em miniatura e sim como seres em desenvolvimento.
Final da década de 1990 a Infância passou a ser respeitada, entendida e amparada por leis. Creches e pré – escolas ganham uma Referencial Curricular, parâmetros para que essa etapa da vida possa ter qualidade respeito o desenvolvimento das crianças e garantindo um espaço em que desenvolvam a aprendizagem, brincando e desenvolvendo a psicomotricidade a infância e respeitada.   .
 A VOZ MASCULINA NA EDUCAÇÃO INFANTIL[4]
Existem profissões que ao longo do tempo ganharam características de um determinado gênero. Podemos citar, por exemplo, a de professor (a) que foi criada de homens para homens e as mulheres não tinham direito a escolarização, pois desde o inicio da colonização até o Brasil Império, a sociedade da época as via como cuidadoras do lar, dos filhos e do marido, não necessitando investir em conhecimento. Enquanto as classes as classes abastardas contratavam preceptores (as) para ensinar suas filhas em casa, onde poucas sabiam ler até aproximadamente XVIII e XIX.
Segundo Manoel (1996), a sociedade conservadora e tradicional temia a profissionalização feminina, porque DEUS e a natureza lhe teriam reservado trabalhos domésticos ou no máximo trabalho assistencialista, por tanto, diziam que as mulheres queriam contrariar as leis divinas. As mulheres eram consideradas frágeis, precisavam de proteção.
Em 15 de outubro de 1827 as leis imperiais trouxeram para a educação o primeiro avanço, as escolas gratuitas, o reconhecimento das mestras como professoras e a inclusão de meninas na sala de aula e é por isso que comemoramos o dia do professor em 15 de outubro. Portanto no Período Imperial, criam-se as escolas de primeiras letras, hoje, ensino básico. As primeiras escolas para formação de professores surgiram entre 1835 a 1880, inicialmente eram ofertadas as vagas aos homens.
Para os meninos, deveria ser ensinada a leitura, a escrita, as quatro operações de cálculo e as noções gerais de geometria prática. As meninas sem nenhum embasamento pedagógico estavam excluídas, aprendiam a ser uma boa dona de casa, ou seja, um currículo diferenciado.  
            Homens e mulheres assumem funções na incipiente industrialização, tendo uma extensa jornada de trabalho, em média, 12 horas por dia. É nesse período que um grande contingente de mulheres passa a atuar como professoras nas vagas deixadas pelos homens que vão para as fábricas, lutando e resistindo contra discriminações e preconceitos. Contudo, eram submetidas a algumas diferenças, dentre elas um salário inferior aos que recebiam os homens.
Quando as mulheres passaram a assumir a sala de aula, Louro (1997) afirma que elas se ocupam num universo marcadamente masculino, foi uma grande conquista exercer a docência. O conhecimento escolar, segundo a autora, é algo que trás uma significação na vida dos sujeitos,
Diante dessa nova realidade econômica, foi consolidando-se socialmente a profissão de professora como feminina, amparada em uma concepção, que tinha como pressuposto a escola como extensão do lar e continuidade da maternidade para atuar em educação infantil. Como afirma Carvalho (1998; p 5):
Predomina uma visão maternal e feminina na docência no curso primário, colocando em relevo os aspectos formadores, relacionais, psicológicos, intuitivos e emocionais da profissão, frente aqueles aspectos socialmente identificados com a masculinidade, tais como a racionalidade, a impessoalidade, o profissionalismo, a técnica e o conhecimento cientificam.
 
Na mesma linha de pensamento Arce (2001) afirma que os termos que são usados na educação infantil estão destinados ao papel doméstico de mãe/educadora enquanto Rabelo (2004) enfatiza que a profissão docente envolve “todo um arcabouço histórico-social que alude a uma “vocação”, a uma missão que deveria ser mais importante do que a própria compensação financeira e que influencia o docente a pensar que é um “dom pessoal.”.
A feminização do magistério foi consolidando-se no início do século XX, trazendo um novo perfil à educação brasileira. Os homens foram deixando essa profissão, por conta da desvalorização salarial e da revolução industrial que abriu outro espaço no mercado de trabalho para os homens, provedores da família.
As filhas da elite procuravam o magistério para alcançar um nível maior de conhecimento e contribuir para um bom casamento, já as filhas dos pobres viam no magistério uma oportunidade de ascensão social. Somente após a revolução de 1930, as filhas da elite procuraram o magistério como profissão, por conta dos problemas financeiros decorrente da crise do café, um dos fatores que elevou o número de mulheres a buscarem o magistério como necessidade de trabalho, como afirma ALMEIDA (1998, p. 71):
Entretanto, o maior motivo de as mulheres terem buscado o magistério estava no fato de realmente precisarem trabalhar! Quando o caso não era o da sobrevivência, e estes deviam ser raros, procuravam na profissão uma realização social que a posição invisível ou subalterna no mundo doméstico lhes vedava, submetidas que estavam à sombra masculina todo-poderosa que ali também exercia seu poder.

Então se inverte os papéis, o magistério torna-se feminino, o novo ofício é aberto às mulheres trazendo grandes marcas religiosas e a ligação materna, o aluno deveria ser cuidado como um filho, com um currículo diferenciado, o conhecimento delas não poderia ser além dos muros de casa ou da escola, como afirma (ALMEIDA 2006 p. 70):

A educação, que se pretendia igual para os dois sexos, na realidade diferenciava-se nos seus objetivos, pois, de acordo com ideário social, o trabalho intelectual não devia fatigar o sexo feminino, nem se construir num risco constituição frágil e nervosa. O fim último da educação era preparar a mulher para o serviço doméstico e o cuidado com o marido e os filhos.


Analisando-se pelo viés de classe, a prática de ensino era extremamente excludente, na qual, quem tinha o direito a concluir a escolarização quando terminavam o ensino elementar era apenas a elite, que podia estudar na Europa para se tornar um advogado ou médico, já os filhos da classe pobre, ficavam para aprender o ofício do pai: sapateiro, padeiro, marceneiro.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo do tempo o homem que exerce a docência em Educação Infantil encontra muitas dificuldades para exercer a profissão, que é predominada pelo feminino.
Esse artigo teve como objetivo central entender o porquê existe barreiras para o homem assumir o papel de docente, cheguei esse lugar é insiguinificante, pois, além de ter baixa remuneração o espaço é marcado por preconceitos. A sociedade prega que o homem é um ser forte, provedor do lar e se estiver lecionando em Educação Infantil ou Series Iniciais do Fundamental I (1° ao 5°ano) a orientação sexual desse professor é questionada, isso faz com que os homens se tornem professores de disciplinas no ensino Fundamental II é onde se em a maioria dos homens lecionando (6° ao 9° ano) Nesse ambiente o professor não precisa ter o cuidado que exige a Educação Infantil e o Fundamental I.
Os próprios educadores não se encontram nesse espaço, incorporam em seu discurso que esse espaço é das mulheres, foi detectado que existe preconceito por parte da família das crianças que acham que nós homens não podemos exercer a docência na Educação Infantil. Entretanto, a escola não está preparada para trabalhar com a diversidade, outro fator que contribuiu para exclusão dos homens é a baixa remuneração. Por isso preferem ocupar profissões que ganham mais. Ficando restritos a docência das series iniciais da Educação Básica e a Educação Infantil que é um campo ligado as mulheres.
Ainda está longe para desconstruir esse preconceito, desde cedo a criança deve ter contato com a diversidade de gênero para contribuir na construção de personalidade e aprender a respeitar o diferente que circula na sociedade atual.
Homens e mulheres do século XXI dividem as mesmas atribuições podem exercer a mesma profissão em qualquer circunstancia, vale ressaltar que no mundo globalizado tem mais oportunidades quem se preparou independente de gênero, Enquanto a profissão de professor uma crença que vem do modelo social oligárquico se tornou preconceito. As mulheres ainda continuam sendo as representantes dessa profissão e se alguém fugir desse padrão de modelo enfrentará preconceitos.
     
REFERENCIAS
ALMEIDA, J. S. (1998). MULHER E EDUCAÇÃO: a paixão pelo possível. São Paulo: EdUNESP.
ARCE, Alessandra. DOCUMENTAÇÃO OFICIAL E O MITO DA EDUCADORA NATA NA EDUCAÇÃO INFANTIL. Cad. Pesquisa, jul. 2001, no. 113, p.167-184. ISSN 0100-1574.
CARVALHO, M. P. de GÊNERO E POLÍTICA EDUCACIONAL EM TEMPO DE INCERTEZA. In: HYPOLITO À. M; GANDIN, L. A. (orgs). Educação em tempos de incertezas: Belo Horizonte : Autentica , 2000.
LOURO, Guacira Lopes. GÊNERO SEXUALIDADE E EDUCAÇÃO: Uma Perspectiva pós estruturalista 3ª ed. – Petrópolis: Vozes, 1997.
TAMBARA, Elomar. PROFISSIONALIZAÇÃO, ESCOLA NORMAL FEMINILIZAÇÃO: magistério sul-rio-grandense de instrução pública no século XIX. História da Educação/ ASPHE (Associação Sul-rio-grandense de pesquisadores em História da Educação). Pelotas, n.3, p. 35 – 58, abril, 1998.
MANOEL, Ivan A. A IGREJA E EDUCAÇÃO FEMININA (1859-1919): Uma face do Conservadorismo. São Paulo: UNESP, 1996.
RABELO, A. O. A MEMÓRIA DAS NORMALISTAS DO INSTITUTO SARAH KUBITSCHEK DE CAMPO GRANDE/RJ. Orientada pelo Professor Doutor em Filosofia Michel Angel Barrenechea. Monografia de Mestrado em Memória Social e Documentos. UNIRIO: Rio de Janeiro, 2004 (125 p.).


[1] Coordenador Pedagógico do Município de Boa Vista do Tupim, Licenciado em Pedagogia – (UNEB), Graduando em História (UNOPAR) Pós graduando em Educação Infantil (UFBA)  rafwbastos@hotmail.com
[2] Entende-se por gênero a construção social e cultural de homem e de mulher. Assim, as diferentes organizações sociais estruturam em diferentes períodos da história, modelos de masculinidade e feminilidade e lhe atribuem valores diferenciados e hierarquia. A teoria de gênero afasta da biologia e conduz para as ciências sociais explicações de desigualdades entre os sexos.

[3] Com a criação do FUNDEB em 2007 a Educação Infantil passa atender crianças de 0 a 5 anos .
[4] Essa discussão do item acima faz parte do meu artigo acadêmico intitulado O LUGAR DO HOMEM NA PRÉ-ESCOLA: um estudo de gênero na educação infantil, achei conveniente apresentar novamente o contexto histórico dessa profissão

1 comentários:

  1. Parabéns acho importante abordagens como essas virem a tona ja que em certos momentos, a presença masculina nessa areá ajuda a descontruir uma idéia de que a educação afetiva deve ser delegada apenas as mulheres.

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